OS POVOS INDÍGENAS E AS ELEIÇÕES 2026

PRONTO FALEI


Avá Tape Verá (*)

 

A política brasileira raramente é apenas política institucional. Em determinados momentos históricos, ela se converte em disputa civilizatória. As eleições de 2026 tendem a assumir exatamente esse caráter: menos uma escolha rotineira de representantes e mais um referendo sobre o projeto de país que se quer consolidar após os ciclos recentes de ruptura institucional, avanço do negacionismo e ataque direto aos direitos territoriais e existenciais dos povos originários.

Do ponto de vista pragmático, o cenário é relativamente claro. O atual ciclo governamental promoveu mudanças estruturais na política indigenista oficial. A criação do Ministério dos Povos Indígenas em 2023 representou um marco histórico: pela primeira vez, o Estado brasileiro passou a ter uma pasta específica para formular, articular e executar políticas públicas diretamente voltadas aos povos originários, com protagonismo indígena na gestão.

Essa mudança institucional não foi apenas simbólica. Ela veio acompanhada da recomposição de órgãos estratégicos. A Funai foi reestruturada, passou a se chamar Fundação Nacional dos Povos Indígenas e voltou a assumir papel ativo na política territorial e de proteção. Ao mesmo tempo, a condução da política pública passou a incorporar quadros indígenas em posições estratégicas do Estado, incluindo a própria Funai e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), sinalizando ruptura com ciclos anteriores de tutela e esvaziamento institucional.

No campo territorial, houve retomada concreta dos processos demarcatórios. Desde 2023, foram homologadas dezenas de Terras Indígenas — números variam conforme a metodologia e o momento de apuração, mas os dados oficiais indicam algo entre 16 e 20 homologações até 2025, além da retomada de portarias declaratórias e criação de dezenas de grupos técnicos para novos estudos territoriais.

Mais importante que o número bruto é o fato político: houve reativação de uma política pública que havia ficado praticamente paralisada por anos. Em alguns períodos anteriores, não houve homologações; já na gestão atual, houve retomada contínua de processos administrativos, destravamento de estudos e reativação do ciclo completo da demarcação.

Esse movimento tem impacto direto sobre conflitos territoriais, proteção ambiental e sobrevivência física e cultural dos povos indígenas. A própria lógica estatal voltou a reconhecer a demarcação como instrumento de governança socioambiental e de contenção de crimes ambientais e invasões.

É nesse contexto que se insere a lógica política do “parente vota em parente”. Não se trata de essencialismo étnico, mas de estratégia histórica de sobrevivência política. A chamada bancada do cocar precisa crescer. Precisa ocupar espaços decisórios em assembleias legislativas, Câmara dos Deputados, Senado e governos estaduais.

No plano estadual, a lógica estratégica é igualmente objetiva: fortalecer candidaturas indígenas ou aliadas comprometidas com políticas estruturais, especialmente a criação ou manutenção de Secretarias Estaduais de Assuntos Indígenas. Sem institucionalidade, direitos viram promessa eleitoral.

Já no plano nacional, o debate eleitoral tende a se aproximar de um plebiscito político sobre continuidade ou ruptura do atual modelo de política indigenista estatal. Para muitos povos e organizações indígenas, o cálculo político tende a considerar o contraste com períodos recentes marcados por tentativas de enfraquecimento da Funai, bloqueio de demarcações e fragilização de políticas de saúde e proteção territorial.

Isso não significa ausência de críticas ou de tensionamentos — que são naturais em qualquer relação entre movimentos sociais e governos. Mas, em termos estratégicos, a tendência majoritária dentro do campo indígena organizado tem sido avaliar a correlação de forças e agir com racionalidade histórica.

A política indígena no Brasil sempre foi campo de disputa. Nunca foi concessão espontânea do Estado. Cada avanço institucional resultou de mobilização, pressão, organização e presença política direta dos povos originários.

Nesse sentido, também se consolida uma leitura política baseada na reciprocidade histórica. Diante das medidas consideradas positivas para os povos originários — como a criação do Ministério dos Povos Indígenas, a reestruturação da Funai e da SESAI, a retomada das demarcações e a recomposição do diálogo institucional — tende a crescer, entre eleitoras e eleitores indígenas, estejam nas aldeias ou nas cidades, uma orientação de apoio eleitoral ao atual projeto político nacional.

Assim, a tendência é que esse apoio se traduza, nas urnas, em votação expressiva no presidente Lula e em seus aliados políticos, especialmente em candidaturas indígenas ou em aliados comprovadamente comprometidos com os direitos dos povos originários.

POR ISSO, 2026 PODE SER LIDO MENOS COMO DISPUTA ELEITORAL COMUM E MAIS COMO DISPUTA DE PROJETO HISTÓRICO:
— entre um Estado que reconhece os povos indígenas como sujeitos políticos e territoriais;
— e um Estado que os trata como obstáculos ao avanço econômico predatório.

Se a história recente ensina algo, é que ausência de representação cobra preço alto.

Por isso, mais do que palavra de ordem, “parente vota em parente” tende a funcionar como estratégia de autodeterminação política dentro do sistema representativo brasileiro.

A luta indígena sempre foi pela vida. E vida, no Brasil, também se disputa nas urnas.

 

(*) Doutor em Etnociências pela Universidade Tekohá Yvy Arandu e pesquisador no Instituto Pozo Colorado y Isla Margarita.

 



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