ALÉM DO SILÊNCIO: POR QUE A LUTA CONTRA A VIOLÊNCIA DE GÊNERO AGORA CONVOCA OS HOMENS AO PROTAGONISMO

PRONTO FALEI POR: REDAçãO CREDITO: ILUSTRATIVO


Historicamente, o debate sobre a violência doméstica e de gênero no Brasil foi desenhado em tons de resistência feminina. Por décadas, foram as mulheres que ocuparam as delegacias, as ruas e as tribunas para denunciar abusos. No entanto, o ponteiro da sociologia e das políticas públicas começou a girar.

Especialistas e movimentos sociais são enfáticos: para que a violência cesse, quem a comete — ou silencia diante dela — precisa mudar. O foco, antes restrito ao acolhimento da vítima, agora se expande para a desconstrução da masculinidade tóxica.

A mudança de paradigma reside em um conceito simples, mas transformador: a violência de gênero não é um "problema de mulher", é um problema estrutural da sociedade. Quando um homem presencia um comentário misógino em um grupo de mensagens ou ignora sinais de abuso de um amigo e decide não intervir, ele atua como um mantenedor indireto do sistema. Romper o ciclo exige que o homem abandone a "neutralidade".

"Não basta não bater. É preciso questionar a cultura que autoriza o domínio sobre o corpo e a vida da mulher", afirma a socióloga e pesquisadora de relações de gênero, Luciana Mendes.

GRUPOS DE REFLEXÃO: O HOMEM NO ESPELHO
Uma das frentes mais eficazes nessa nova estratégia são os Grupos de Reflexão para Homens Autores de Violência. Previstos na Lei Maria da Penha, esses espaços não são apenas punitivos, mas educativos.

- DESCONSTRUÇÃO: Discussão sobre o que é "ser homem" hoje.
- INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: Aprendizado sobre como lidar com frustrações sem recorrer à agressividade.
- RESULTADOS: Dados de diversos tribunais de justiça no Brasil mostram que a taxa de reincidência cai drasticamente (muitas vezes de 40% para menos de 5%) quando o agressor passa por esses grupos.

O conceito de Pacto da Masculinidade, cunhado por diversos estudiosos, explica o silêncio cúmplice entre homens. É um acordo tácito de proteção mútua que valida comportamentos abusivos para manter o status de poder.

A NOVA ONDA DO DEBATE PROPÕE QUE OS HOMENS DESENVOLVAM A ESCUTA ATIVA E A AUTOCRÍTICA. ISSO ENVOLVE:
1 - Reconhecer privilégios históricos.
2 - Intervir em situações de assédio no ambiente de trabalho e lazer.
3 - Educar as novas gerações fora dos estereótipos de "agressor" ou "provedor inabalável".

É importante notar que essa mudança também beneficia a saúde mental masculina. O machismo impõe uma "armadura" que impede o homem de demonstrar vulnerabilidade, o que gera altos índices de depressão, alcoolismo e suicídio entre eles.

Portanto, a desconstrução do machismo não é apenas um ato de solidariedade às mulheres, mas um processo de libertação para os próprios homens.

A luta contra a violência de gênero atingiu um ponto de maturação onde a vítima já falou o suficiente. Agora, o silêncio que precisa ser quebrado é o masculino.



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