• Quarta, 29 de Julho de 2026

VANESSA VIROU SÍMBOLO DA FALTA DE PROTEÇÃO ÀS MULHERES, MAS FEMINICÍDIOS CONTINUAM EM MS

FONTE: O JACARé POR: PRISCILLA PERES CREDITO: ARQUIVO TOP MíDIA NEWS


Há um ano, em 12 de fevereiro, a jornalista Vanessa Ricarte foi esfaqueada pelo então noivo, Caio Nascimento. Aquele foi o segundo feminicídio registrado em Mato Grosso do Sul em 2025 e o desenrolar do caso mobilizou forças de segurança e políticas públicas do Estado, principalmente após o vazamento de áudios enviados pela própria Vanessa denunciando o atendimento que recebeu na Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande.

“Eu fui falar com a delegada, ela me tratou bem prolixa, fria, seca. Ela me disse que não podia me passar o histórico dele. Tudo protege o cara, o agressor. Ela falou para eu mandar mensagem para ele, avisando que eu ia em casa. Se eu fui tratada dessa maneira, imagina uma mulher vulnerável, essas que são mortas, que vão para a estatística de feminicídio”, disse Vanessa, momentos antes de chegar em casa e ser recebida a facadas por Caio.

Os áudios desmentiram a versão apresentada pelas delegadas da DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher), que haviam atribuído à vítima a falta de compreensão da gravidade da situação. A morte de Vanessa ganhou repercussão nacional. Foram anunciadas investigações sobre o atendimento prestado pela delegacia, promessas de maior agilidade na concessão de medidas protetivas e a criação de uma coordenação compartilhada na Casa da Mulher Brasileira.

Um ano se passou. Desde então, 40 mulheres foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul. Caio Nascimento segue preso, mas ainda sem julgamento. E a pergunta que ecoa neste fevereiro de 2026 permanece a mesma: quem protege as mulheres?

ATENDIMENTO ÀS VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
A violência sofrida por Vanessa dentro da própria casa é uma realidade que Ceurecy Fátima Ramos conhece bem. Ela viveu agressões físicas e psicológicas contra si e contra os três filhos, praticadas pelo homem que deveria protegê-los. Para sobreviver, fugiu, buscou ajuda e recebeu da polícia um tratamento semelhante ao relatado por Vanessa. Sobreviveu e decidiu transformar a própria dor em luta.

Há mais de uma década, Ceurecy fundou o Aciesp (Instituto de Apoio, Capacitação e Instrução de Economia Solidária do Povo), no bairro Aero Rancho, em Campo Grande. Muitas vezes com recursos próprios e contando com doações, criou um espaço de acolhimento para mulheres vítimas de violência.

No local, elas recebem apoio jurídico, psicológico e assistência social — e, sobretudo, acolhimento. Atualmente, cerca de 600 mulheres passam pelo instituto.

“Me desfiz de carro e casa que eu tinha e coloquei o dinheiro aqui. Eu quero ajudar as mulheres, mas, mesmo assim, todos os dias a gente lida com essa violência que continua crescendo”, afirma.

Ela acompanhou o caso de Vanessa com esperança de mudanças nas políticas públicas. “A gente acreditou que as coisas mudariam, mas não. A violência continua crescente contra as mulheres e a falta de acolhimento também”, disse Ceurecy, que defende punições mais duras para agressores.

“Eu acredito que o homem tem que sentir no bolso. Eles precisam pagar pelo que fazem, além de ficarem presos e terem a vida afetada como consequência do que fazem com as mulheres. Mas a realidade ainda está muito longe disso”, lamenta.

NÚMEROS ECOAM A REALIDADE
Nunca se falou tanto sobre violência contra a mulher em Mato Grosso do Sul quanto em 2025. Em junho, o Governo do Estado lançou a campanha #TodosPorElas, seguida do Protege (Programa Estadual de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra as Mulheres) e do IntegraJus Mulher. Também foram realizadas caminhadas e mobilizações públicas pedindo o fim da violência.

Mas os números contam outra história. Em 2025, enquanto campanhas eram lançadas, 39 mulheres foram assassinadas e 22.083 registros de violência doméstica foram contabilizados. Isso representa, em média, 60 mulheres vítimas de violência dentro de casa todos os dias.

No fim de 2025, o país assistiu a uma escalada de casos de violência extrema contra mulheres. Em 2026, o Governo Federal lançou o Pacto Brasil entre os Três Poderes para o Enfrentamento do Feminicídio. Ainda assim, enquanto autoridades ampliam discursos e programas, mulheres continuam sendo agredidas e assassinadas.

Somente neste início de 2026, Mato Grosso do Sul já registra três feminicídios e cerca de 2,4 mil casos de violência doméstica. O caso Vanessa virou símbolo, gerou discursos, programas e pactos institucionais. Mas, fora dos eventos oficiais, mulheres continuam pedindo ajuda — e muitas continuam morrendo.

Se um crime que chocou o país não foi suficiente para mudar a realidade, o que ainda falta acontecer para que proteger mulheres deixe de ser promessa e passe a ser prioridade concreta?

 



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