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A LONGA ESPERA POR JUSTIÇA DAS CRIANÇAS QUEIMADAS EM ESCOLA ESTADUAL DE MS
Quase uma década após tragédia em Feira de Ciências que deixou marcas físicas e psicológicas profundas, ex-alunos conquistam direito a indenizações. No entanto, a lentidão do Judiciário prolonga o sofrimento das famílias
POR: REDAçãO PRONTO FALEI, COM INFORMAçõES DO CAMPO GRANDE NEWS CREDITO: REPRODUçãO
O tempo cura todas as feridas? Para Kaio Henrique e Naiany Isabele, a resposta é um doloroso "não". Em dezembro de 2017, as vidas dessas duas crianças — então com apenas 8 e 10 anos — foram tragicamente transformadas pelo fogo dentro de uma sala de aula da rede estadual de ensino, em Eldorado (MS). Hoje, quase nove anos depois, a Justiça finalmente reconheceu a responsabilidade do Estado, garantindo indenizações e pensão vitalícia. Mas fica a pergunta: quantos anos de infância e dignidade foram perdidos nos labirintos da burocracia estatal?
O DIA EM QUE A ESCOLA VIROU UM INFERNO
O que era para ser um dia de aprendizado e encantamento na Feira de Ciências transformou-se em um cenário de horror. Uma professora conduzia um experimento com álcool em gel. Ao tentar repetir a demonstração, o combustível foi despejado em um recipiente que ainda guardava chamas invisíveis. O fogo se propagou num piscar de olhos. Em um gesto de desespero para conter o incêndio, a educadora atingiu o recipiente com a mão, lançando o líquido inflamado diretamente contra os estudantes.
O impacto foi devastador: Kaio Henrique (8 anos na época): Teve 70% do corpo destruído por queimaduras de segundo e terceiro graus. Uma infância inteira interrompida por cirurgias, enxertos e dores inimagináveis. Naiany Isabele (10 anos na época): Teve 15% do corpo atingido, carregando marcas indeléveis na pele e na alma.
A sentença que reconhece a falha grave na prestação do serviço público e a negligência do Estado é uma vitória jurídica, mas chega com um atraso que beira a desumanidade. Nove anos é quase o tempo que Kaio e Naiany tinham de vida quando foram queimados.
Enquanto o tempo corria lentamente nos tribunais, as famílias enfrentavam sozinhas os custos de tratamentos médicos, pomadas caríssimas, terapias e o preconceito diário das cicatrizes expostas.
Como se não bastasse a dor física, o Governo do Estado de Mato Grosso do Sul adotou uma postura defensiva cruel durante o processo. Tentou culpar uma terceira aluna pelo uso de álcool líquido e chegou ao absurdo de alegar "inexistência de provas dos danos". A Justiça, firmemente, rejeitou os argumentos do Estado, mas a tentativa de se esquivar da culpa estendeu o calvário dessas famílias por quase uma década.
AS DECISÕES JUDICIAIS: O VALOR DE UMA INFÂNCIA ROUBADA
As sentenças foram proferidas pelas Varas de Fazenda Pública de Campo Grande, dividindo as reparações da seguinte forma:
Naiany Isabele, deverá receber R$ 80.000 por danos morais, R$ 60.000 por danos estéticos e R$ 50.000 a Mãe por indenização.
Já o Kaio Henrique, R$ 50.000 por danos morais, R$ 80.000 por danos estéticos e R$ 30.000 de indenização a Mãe.
A condenação aconteceu, mas o dinheiro ainda não está nas mãos de quem mais precisa. De acordo com o advogado das famílias, Willian Tápia Vargas, a indenização de Kaio entrou na infame engrenagem dos precatórios — o sistema pelo qual o Estado agenda o pagamento de suas dívidas judiciais, sem prazo imediato. Para Naiany, a sentença é tão recente que sequer há previsão de quando o Estado pagará pelo erro que cometeu há nove anos.
A decisão judicial traz um alento financeiro e valida a dignidade ferida dessas famílias, mas expõe a ferida aberta de um sistema onde a justiça tarda tanto que perde parte de seu significado. Kaio e Naiany já não são as crianças que entraram naquela sala de aula em 2017. Eles cresceram esperando que o Estado, que deveria tê-los protegido, assumisse a responsabilidade por suas cicatrizes.
