Corrupção
SAÚDE DE PACIENTES ERA USADA COMO MOEDA DE TROCA POR DEPUTADOS E PREFEITOS EM MS
Em diálogos chocantes, Ed Carlo afirmava que, se o “acerto” não ocorresse, ele iria “trancar tudo” na regulação, deixando o município com “saúde zero”
POR: REDAçãO, PRONTO FALEI, COM INFORMAçõES DO CORREIO DO ESTADO CREDITO: PAULO RIBAS
Uma investigação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) revelou um dos esquemas de corrupção mais cruéis da história recente de Mato Grosso do Sul. A Operação Gutemberg desmantelou uma rede criminosa onde a vida de pacientes na fila do SUS era usada de forma literal como moeda de troca para forçar prefeituras a comprarem livros superfaturados e com indícios de plágio.
O caso é tão grave e envolve tantas autoridades com foro privilegiado — incluindo deputados estaduais e prefeitos — que o processo foi retirado da primeira instância e subiu direto para o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).
O ABSURDO: "SÓ OPERA SE FECHAR O CONTRATO" E "VAI MORRER TODO MUNDO"
No centro da engrenagem estava Ed Carlo Britto Burgatt, ex-líder da Central de Regulação de Vagas do Estado. Ele tinha o poder de decidir quem vivia e quem esperava por cirurgias em MS. Burgatt, em parceria com o vendedor Gabriel Taquino, usava esse poder de forma implacável para extorquir prefeitos:
A CHANTAGEM: Se o prefeito comprasse os livros didáticos da Editora Avante (controlada pela Família Jafar), o município ganhava "vagas imediatas" e exames liberados na frente da fila.
A PUNIÇÃO: Se o prefeito recusasse o contrato milionário, o município era simplesmente bloqueado no sistema de saúde.
AS PROVAS: Em mensagens interceptadas pelo Gaeco, as ordens eram explícitas e chocantes: "Só opera se fechar [o contrato]."
"Se não fechar, vai morrer todo mundo."
Quando a prefeitura de Nova Alvorada do Sul resistiu em comprar os livros, a ordem de Ed Carlo foi drástica: "Deixa o povo sem leito lá" e "suspende as cirurgias".
Para dar força política à extorsão e abrir as portas das prefeituras, o esquema contava com o apoio de parlamentares influentes, que usavam seus assessores para fazer a ponte com os municípios.
De acordo com o Gaeco, os nomes citados em relatórios de inteligência e diálogos interceptados como "padrinhos" ou articuladores políticos das negociações são:
- Paulo Corrêa (PL) - Deputado Estadual
- Jamilson Name (PP) - Deputado Estadual
- Mara Caseiro (PL) - Deputada Estadual
- Herculano Borges (Republicanos) - Vereador de Campo Grande e ex-deputado
R$ 27 MILHÕES EM LIVROS SUSPEITOS E DINHEIRO VIVO
Aproveitando-se de uma brecha na lei que dispensa licitação para a compra de obras literárias e paradidáticas, a Editora Avante faturou mais de R$ 27 milhões em contratos altamente suspeitos com prefeituras do estado.
Para não deixar rastros da propina, os envolvidos realizavam saques massivos em dinheiro em espécie ou pulverizavam os valores em contas bancárias de familiares de agentes públicos. Os envolvidos agora respondem por crimes de corrupção ativa, passiva, peculato, extorsão e lavagem de capitais.
