Política
CÂMARA DE DOURADOS ARQUIVA DENÚNCIAS DE HOMOFOBIA, VIOLÊNCIA DE GÊNERO E FARRA DAS DIÁRIAS EM VOTAÇÃO RELÂMPAGO
Câmara de Dourados arquiva todas de denúncias sobre atritos internos e confirma que vereador não vota contra vereador
FONTE: POR REDAçãO, PRONTO FALEI CREDITO: DIVULGAçãO
Em uma demonstração explícita de corporativismo e pressa para as férias, a Câmara Municipal de Dourados promoveu um "bota-abaixo" institucional na última sessão legislativa antes do recesso parlamentar, nesta segunda-feira (6). Em votações esmagadoras, a Casa de Leis rejeitou e arquivou sumariamente todas as denúncias que pesavam contra três vereadores. Na prática, o Legislativo douradense optou por fechar as cortinas do primeiro semestre blindando seus próprios membros de investigações sobre quebra de decoro, homofobia, violência política de gênero e suspeitas de corrupção com dinheiro público.
O caso mais emblemático envolve o vereador Marcio Pudim (PSDB), denunciado pela colega de parlamento Isa Marcondes (Republicanos) por violência política de gênero e homofobia. O placar foi acachapante: 18 votos a zero pelo arquivamento. Nenhum parlamentar ousou quebrar o pacto de silêncio para pedir a apuração dos fatos.
A denúncia contra Marcio Pudim baseava-se em um episódio grotesco ocorrido no plenário no dia 29 de junho. Durante uma discussão pública na Tribuna — espaço que deveria ser destinado ao debate de ideias para o município —, Pudim desferiu ataques de cunho estritamente pessoal e discriminatório contra a vereadora.
Conforme os documentos oficiais, o vereador disparou contra Isa Marcondes frases como:
"Seja homem como você fala que é homem."
Logo em seguida, em uma tentativa clara de desqualificar a parlamentar evocando seu passado empresarial, disparou: "Essa postura da senhora, como você tratava os seus clientes lá da boate, a mim não vai tratar!"
"Trate com urbanidade e respeito, o que às vezes lhe faltou na criação."
Para a defesa de Isa, que acionou também a Procuradoria da Mulher da Casa — comandada pela vereadora Karla Gomes (Podemos) —, as falas configuram injúria explícita e abuso do direito à imunidade parlamentar, atingindo diretamente a honra, a dignidade e a orientação sexual da vereadora. No entanto, para os 18 vereadores que votaram pelo arquivamento, as ofensas misóginas e homofóbicas parecem ter sido tratadas como mero "desentendimento cotidiano".
"COMBO DO ARQUIVAMENTO": SUPOSTA FARRA DAS DIÁRIAS TAMBÉM VAI PARA A GAVETA
Se a questão civilizatória e de direitos humanos foi solenemente ignorada pela Câmara, a fiscalização do uso do dinheiro público seguiu pelo mesmo ralo.
Também nesta segunda-feira, deram entrada na Casa denúncias que pediam a cassação dos vereadores Dalton (PL) e Ana Paula (Republicanos). Ambos são acusados de quebra de decoro parlamentar por supostas irregularidades no recebimento de diárias pagas pelo Legislativo — a famosa "farra das diárias".
A leitura dos processos e a votação ocorreram em ritmo de rolo compressor. Por 18 votos a um, os parlamentares decidiram que a suspeita de mau uso dos recursos públicos não merecia sequer ser investigada por uma Comissão Processante.
O desfecho da sessão desta segunda-feira deixa uma mancha profunda na atual legislatura de Dourados. Ao lavar as mãos e enterrar três denúncias graves em uma única tarde, a Câmara Municipal emite um sinal perigoso para a população: o de que as paredes do Palácio Jaguaribe servem de escudo para blindar aliados e abafar escândalos.
Os vereadores de Dourados entraram em recesso nesta-segunda-feira. Deixam para trás as cadeiras vazias do plenário, mas levam na bagagem o peso de uma decisão que priorizou o conforto do compadrio político em detrimento da ética, do respeito às mulheres e da transparência com o erário.
